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Inovação apoiada na pesquisa: os passos de uma startup para implementar um novo exame de Covid-19

Para Jairo Freitas, CEO da LabLift, setor de Saúde tem grandes oportunidades para inovações consideradas hard science

Marcelo Freire, jornalista da agência essense

O desenvolvimento da inovação é um assunto em geral associado a startups e soluções que embarcam tecnologia de ponta. Mas a inovação também tem um outro ponto decisivo, especialmente na Saúde, que nem sempre é lembrado: a pesquisa.

Por esse motivo, o caminho de Jairo da Silva Freitas Júnior, é um pouco diferente do tradicional empreendedor da inovação, que valida diretamente suas soluções nas agências regulatórias. Jairo é CEO da LabLift, uma startup que utiliza a inteligência artificial para desenvolver tecnologias que otimizam o diagnóstico e acompanhamento de pacientes. A startup, fundada no início do ano, conseguiu financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) para desenvolver sua solução: um teste de Covid-19 feito a partir de uma coleta de sangue.

Esse é o primeiro passo da LabLift para abarcar inteligência artificial em produtos médicos e conquistar uma fatia no mercado nacional dentro da chamada inovação hard science – que engloba, além da tecnologia, as ciências básicas. E há muitos detalhes para observar nessa caminhada.

Oportunidade à vista

Com passagem na área de pesquisa de instituições como a Universidade Federal do ABC, Jairo contou com outros dois pesquisadores, Tiago Botari (inteligência artificial) e Rafael Bizão (modelagem), e a consultora médico-científica Giovana Eltz, para estabelecer as fundações da nova empresa.

A solução da LabLift estabelece o diagnóstico de Covid-19 utilizando um exame de hemograma e uma ampla base de dados que indica, além do positivo ou negativo, as chances de o caso demandar uma internação e um eventual risco de morte do paciente.

O projeto é que a solução, que está em fase de validação, custe metade do valor de um teste RT PCR, já que dispensa a importação de reagentes do exterior e aproveita insumos que as instituições já possuem para realizar hemogramas. “E o teste não ficará apenas para a Covid-19; ele vai evoluir para diagnosticar outras doenças respiratórias”, conta Jairo. 

O custo alto da tecnologia na Saúde foi um dos motivadores do nascimento da empresa. Mas os fundadores também observaram uma grande oportunidade de crescimento no mercado de hard science do Brasil.

“A ciência é desvalorizada na área acadêmica e os recursos para pesquisa são escassos. Mas não há muitas inovações tecnologicamente disruptivas. Por isso, quem entrar nessa área tem uma grande chance de obter retorno”, ressalta o CEO. “Existe muita chance de as empresas colocarem suas soluções no mercado e ficarem sozinhas.”

Os passos para viabilizar a inovação 

Jairo enxergou essa lacuna na Saúde e se dispôs a cumprir os passos na compreensão de como obter recursos de agências que apoiariam a pesquisa. A primeira coisa, ele conta, foi estudar a consulta pública da Anvisa que define a categoria do software as a medical device e entender todos os requisitos regulatórios para a implantação de um produto do tipo.

“Esse é um caminho com alguns passos: conhecer a literatura acadêmica que ajuda a embasar o produto; desenvolver um projeto sólido de pesquisa, explicando como será a coleta de dados, indicando os resultados esperados e comprovando que a solução é economicamente viável; e, por fim, prever tudo que o regulador vai exigir“, lista o CEO. “Se a empresa tiver tudo isso bem desenhado, aumenta bastante a chance de conseguir, por exemplo, um investidor-anjo, porque ele vai perceber a qualidade técnica do projeto e a viabilidade do negócio.”

Na parte específica do financiamento através de agências de amparo à pesquisa, Jairo indica instituições estaduais como a paulista Fapesp, a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que eventualmente publica editais do tipo. Segundo ele, essas agências exigem que a empresa estude o que já foi produzido por pesquisadores na área e apresente uma metodologia que se prove viável. “Esse trabalho precisa ser sólido, porque as agências provavelmente avaliarão o método da pesquisa antes de avaliar o mérito do produto”, conta ele. 

Após passar pelo crivo científico, o empreendedor pode ser chamado para uma entrevista. Além de pleno conhecimento do projeto, afirma, o aspirante precisa apresentar um elemento fundamental para qualquer empreendedor: o brilho nos olhos. “É a hora de mostrar que você está engajado até a cabeça. Qualquer investidor, público ou privado, busca um empreendedor que está disposto a fazer tudo que está a seu alcance para seu projeto dar certo.”

Jairo diz que conhece muitas healthtechs brasileiras com um projeto excelente nas mãos, mas que ainda temem a fase de aprovação científica. “Eu incentivo esses empreendedores a seguirem nesse caminho, e espero que eles façam isso. Há muitos produtos novos que poderão ajudar a vida dos pacientes.”

A demanda está lá

Para Michelle Mello, diretora executiva da Designing Saúde, a aceleração tecnológica e o crescimento das healthtechs, amplificados pelas necessidades da pandemia, abriram espaço para novos entrantes com soluções disruptivas e economicamente viáveis para a Saúde.

“Na economia, em geral, as novas tecnologias otimizam processos e reduzem custos. A área da saúde, entretanto, historicamente se viu diante do incremento dos custos a cada incorporação de novas tecnologias. Apesar desse legado, podemos ver esse novo cenário sob um aspecto de oportunidade para a saúde”, pontua Michelle.

Segundo ela, são muitas as dores do setor, e os investidores estão ávidos por soluções digitais escaláveis que agreguem valor à cadeia da saúde.

É nesse momento que os empreendedores, independentemente da fonte em que os recursos serão buscados, precisam saber como seu produto funcionará quando for aplicado. “A solução precisa ser competitiva e fazer sentido financeiramente. Antes de fazer o projeto do teste de Covid para concorrer com o RT PCR, por exemplo, eu precisei checar se a conta realmente fechava”, conta o empreendedor.

Ninguém inova sozinho

Mas a entrada competitiva no mercado e um produto atraente para as instituições não conclui a tarefa do empreendedor que trabalha com inovação. Michelle Mello alerta que a startup também tem que se atentar à colaboração com outras empresas na oferta de soluções.

“As parcerias são fundamentais para ganhar velocidade no negócio e otimizar recursos. Estar antenado ao que está acontecendo nos grandes hubs de inovação nacionais e, principalmente, internacionais, impulsiona a criatividade disruptiva e gera vantagem competitiva”, explica a diretora executiva da Designing Saúde.

Jairo diz que a participação nesses hubs de inovação, como o Eretz.bio, do Hospital Albert Einstein, e o Harena Inovação, do Hospital de Amor, é mais do que bem-vinda. ” É a chance de se conectar a uma grande instituição e também de encontrar potenciais parceiros.”

Mas o mais importante é não ter qualquer rejeição com relação à possibilidade de estabelecer parcerias, independentemente do ingresso ou não em um hub de inovação. “A colaboração soma, não divide. Se você não estiver disposto a ceder um pouco, você não vai ter parceiros, e o projeto não vai ser viável.  O empreendedor é pequeno e não tem todos os recursos pra manter de pé. E quando falo em recurso, também me refiro a pacientes e médicos, por exemplo. O empreendedor não tem tudo isso. Ele vai precisar de ajuda”, resume.

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