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Ecossistemas de integração: como a Saúde se prepara para incorporar a inovação 

Para Fabrício Campolina, da Johnson & Johnson, healthtechs são a próxima onda, mas a transformação digital vai muito além delas

Marcelo Freire, jornalista da agência essense

Em pouco mais de um ano, a conversa sobre tecnologia e inovação na Saúde mudou. Muito do que era previsto para ser incorporado de forma gradual ao longo dos próximos anos foi utilizado como recurso para resolver todos os desafios exigidos pela pandemia da Covid-19. Agora, o mercado vê uma onda de heathtechs chegando com todos os tipos de inovação, tanto focadas na tecnologia quanto em novos modelos de negócio. E as notícias sobre essas startups recebendo investimentos pesados são cada vez mais frequentes.

Fabrício Campolina está bem por dentro. Ele comanda a área de healthcare transformation na Johnson & Johnson Latam e lida diretamente com as movimentações desses novos players. “Há uma perspectiva de que o ecossistema das healthtechs vai passar por uma era de ouro, como foi para as fintechs na década passada. É a próxima onda, que vai nos ajudar na transformação que precisamos”, garante.

Segundo ele, os investidores estão abraçando essas novas empresas porque elas têm o potencial de causar um impacto imenso na sociedade. Ao mesmo tempo, as grandes corporações também podem se beneficiar com a integração de suas áreas de inovação aberta – outra novidade que está em crescimento no setor – a esses novos ecossistemas.

“Os empreendedores abrem empresas para mudar o cenário do País e investem em healthtechs para acelerar o crescimento. As grandes corporações, do seu lado, se integram a essas healthtechs, que colocam seus produtos a serviço de mais clientes utilizando a estrutura das multinacionais. É um ciclo que se retroalimenta, e quem sai ganhando é o paciente.”

Por trás desse contexto otimista, no entanto, estão detalhes que precisam ser ajustados até que esse ciclo se retroalimente. 

Rotas menos tortuosas

Quando começou a trabalhar no setor de Saúde, em meados dos anos 2000, Fabrício encontrou um ambiente hostil em relação às novas tecnologias. “A inovação era vista pelo sistema de Saúde como um agressor de custos, que não gerava valor para o paciente”, diz. Com a experiência de alguém que saiu de empresas ligadas à tecnologia para se aventurar no mundo da Saúde, ele conta que sempre teve uma visão diferente. 

Hoje, o diálogo é mais fácil. Fabrício percebe uma porta aberta para divulgar a tecnologia como principal solucionador em dois problemas da Saúde: a melhora no padrão de cuidado e no acesso dos pacientes e a contribuição para um sistema mais sustentável no longo prazo.

“Da forma como está organizado, o sistema de Saúde gera desperdícios de 20% a 30%. A tecnologia resolve uma das nossas grandes dores, que é a fragmentação das informações. Só a tecnologia vai permitir integrar dados do sistema e gerar uma visão mais holística sobre a Saúde. Assim, ela vai nos ajudar a endereçar boa parte desses desperdícios”, prevê.

Ele aposta em alguns pilares fundamentais para essa transformação: ciência de dados, inteligência artificial, integração dos processos de saúde e massificação dos cuidados de atenção primária. 

Superando os desafios da regulação 

Para Martha Oliveira, diretora executiva da Designing Saúde, a transformação digital é uma realidade que vai pegar inclusive as instituições mais conservadoras e alterar o status quo do setor, utilizando recursos já comuns no exterior e que começam a chegar ao Brasil. 

Nesse contexto, há os desafios regulatórios que, Martha reforça, estão ligados a regras definidas há mais de 20 anos por órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). “São regulações feitas num momento em que não era possível imaginar a realidade de hoje. Só isso já mostra a necessidade de revisarmos os marcos legais e entender a atualidade.”

Ela e Fabrício ressaltam que, apesar dos obstáculos, tanto a Anvisa quanto a ANS têm feito um trabalho importante na tentativa de incorporar soluções inovadoras na Saúde. “A Anvisa garante a proteção sanitária da população”, reconhece Fabrício. “A agência tem processos robustos e evoluiu bastante nos últimos anos em relação à velocidade de análise.”

Ele recorda, também, que as organizações da Saúde podem incorporar inovações sem que precisem aguardar por um aval das agências. “Todos podem inovar em seus processos, na maneira com que os agentes trocam informações entre si. Esse tipo de inovação é muito mais ágil e pode gerar mais valor. Ela é a nossa grande oportunidade no momento”, reforça. 

Mas ele lembra que esses novos processos também precisam ser acompanhados de um incremento em questões como privacidade e cibersegurança. “Precisamos saber, com clareza, os requerimentos mínimos para que as corporações protejam os dados e serviços prestados.” 

Integração em rede

Apesar de a palavra “inovação” remeter quase que naturalmente à tecnologia, a discussão sobre transformação nas organizações é muito mais ampla. Para uma mudança mais efetiva, é preciso debater, também, temas tão inovadores quanto as soluções high tech que chegam ao mercado todos os dias. 

Fabrício, da sua parte, reforça o discurso de muitos gestores da Saúde que olham para o futuro e pensam sobre a necessidade de transformar o modelo de remuneração para efetivamente entregar valor para o paciente. “Esse mundo antigo do fee-for-service vai ficar para trás. Vamos evoluir para um cuidado de saúde que remunera o valor gerado, e não a quantidade de serviços prestados. O ecossistema integrado, focado no paciente, é construído a partir da junção da transformação digital com o cuidado de saúde baseado em valor“, aponta. “E ele vai nos ajudar a melhorar o cenário da Saúde no Brasil.”

A disseminação desses ecossistemas integrados, ele ressalta, é um reflexo de que o mercado absorveu uma mentalidade menos competitiva e que prevê maior colaboração entre as próprias empresas. 

Martha Oliveira concorda e complementa: “Há um próximo passo para esse ecossistema de inovação, que é as empresas se observarem como uma rede. Já existem muitas iniciativas de inovação no Brasil, mas elas ainda não pensam de uma forma realmente colaborativa, de maneira com que uma complemente a outra. No futuro, haverá mais foco na formação de redes de apoio integradas.”

Novos paradigmas

Nos próximos anos, as empresas podem aproveitar tanto esse ambiente mais colaborativo e integrado quanto as inovações high tech que chegam para aprimorar a assistência. Inteligência artificial, IoT (Internet das Coisas) e a chamada “internet do comportamento” são algumas das ferramentas que estão nessa lista.

Daqui a alguns anos, os dispositivos que monitoram diariamente os passos das pessoas poderão criar mecanismos que contribuam para o diagnóstico precoce de doenças e encorajem as pessoas a mudar eventuais comportamentos de risco. “A tecnologia e a ciência de dados atuarão nesse ponto”, diz Fabrício. “No melhor dos cenários, o paciente nem desenvolve a doença. Mas, caso ele desenvolva, a tecnologia de monitoramento remoto o impulsionará a buscar ajuda logo nos estágios iniciais”, prevê.

Para Martha, essas mudanças representam uma quebra de paradigmas na Saúde. “Predizer as chances de uma pessoa desenvolver uma doença é uma outra forma de fazer medicina, que a gente ainda não consegue medir.”

Independentemente do formato, a tecnologia é o centro desse novo mundo de transformação das organizações que, na ponta da linha, fornecerá aos usuários uma melhor assistência. “É a tecnologia que dará a escala necessária para que nós possamos evoluir de uma remuneração baseada em volume para uma baseada em valor. É ela que poderá integrar os dados e nos permitir que a gente se organize de forma colaborativa, através de ecossistemas abertos. E, por fim, é a tecnologia que vai possibilitar que se coloque o paciente no centro e faça com que ele se engaje no cuidado da sua própria saúde“, conclui a diretora executiva da Desinging Saúde.

Para Fabrício, a inovação e a tecnologia são as bases que possibilitam as mudanças rumo a um sistema de saúde mais sustentável, com o cuidado baseado em valor. “Abracemos esse novo mundo, essa nova forma de fazer negócio, para que a gente evolua para uma sociedade focada na colaboração, na aceleração e na criação de valor para o paciente.

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