Post Cover Image

Autoatendimento, humanização e regulação adequada: as tendências e desafios da telemedicina no Brasil

Para Fernando Ferrari, da healthtech DOC24, as plataformas digitais já se consolidaram no mercado, mas ainda enfrentam resistências e obstáculos para avançar

Marcelo Freire, jornalista da agência essense

A utilização da telemedicina pelas instituições de Saúde tem uma linha divisória clara no Brasil e no mundo: o início da pandemia, nos primeiros meses de 2020. 

De uma hora para outra, antigos paradigmas, tabus e preconceitos precisaram ser quebrados para que a população fosse atendida em um período marcado pelas rígidas medidas de isolamento social e o crescimento vertiginoso de casos de Covid-19. Os obstáculos regulatórios que impediam a adoção ampla das teleconsultas foram rapidamente superados.

A healthtech DOC24 viveu intensamente essa transição. Começou a operar no Brasil em julho de 2019, meses antes da pandemia, focando na orientação médica a turistas que precisavam de assistência no exterior. 

De 3.000 consultas mensais feitas em janeiro de 2020, o número rapidamente subiu para 50 mil, chegando a um pico de 200 mil por mês. “Toda a resistência de médicos e pacientes às soluções de telemedicina foram quebradas de uma hora para outra”, lembra Fernando Ferrari, diretor geral da DOC24. 

Saiba mais

Proatividade e capacitação, os segredos para uma aprovação rápida nas agências reguladoras

O Brasil mais idoso exigirá novos modelos (e mais tecnologia) na Saúde

Humanização e inovação: os caminhos para melhorar o autocuidado e engajar os pacientes

Hoje, a DOC24 foca em três pilares: desenvolvimento de software para instituições que utilizam seus sistemas; atendimento clínico, com equipe médica da própria DOC24; e oferta de “consultórios inteligentes” – uma cabine de autoatendimento que permite que o paciente se autoexamine, com o resultado sendo enviado ao médico em tempo real.

Essa gama de soluções é uma lembrança, também, de que o conceito de telemedicina é amplo e vai além das já conhecidas plataformas de teleconsulta. “Quando falamos em realizar cirurgias de forma remota, assim como os consultórios inteligentes, isso também é telemedicina”, resume Ferrari.

A telemedicina do futuro e o home care

O cenário de utilização dessas soluções no país, obviamente, não guarda semelhanças com o período pré-pandemia. A aceitação entre médicos e pacientes é muito maior, o que facilita o uso das ferramentas e a negociação entre os provedores de soluções de telemedicina e as empresas interessadas em utilizá-las. 

O diretor da DOC24 lembra que uma negociação com uma grande instituição, iniciada em meados de 2019, demorou meses até ser concluída. “E as conversas só aceleraram no começo de 2020, justamente por causa da previsão de explosão de casos de coronavírus. Nós tivemos que implementar a solução, treinar o pessoal e colocar tudo em funcionamento em um mês”, diz ele. “Hoje, é tudo mais célere: esse processo dura apenas algumas semanas.”

Ferrari também afirma que as ferramentas digitais têm se mostrado bem-sucedidas, citando que a teleconsulta tem um índice de resolução de casos de baixa complexidade que beira os 90%. Com os consultórios inteligentes, diz ele, esse índice sobe a 95% nos atendimentos mais comuns da teleconsulta: dermatites simples, queixas estomacais e doenças respiratórias. “Aí, quando somamos a essas ferramentas as soluções de inteligência artificial, começamos a falar em telemedicina do futuro”, completa.

O conceito de telemedicina do futuro envolve alta tecnologia – inteligência artificial e soluções de machine learning e IoT –, mas também está intimamente ligada ao crescimento da atenção domiciliar.

“Nós planejamos atuar com plataformas que monitorem os pacientes crônicos e internados em suas casas, utilizando inteligência artificial. Isso se juntará às ferramentas de teleconsulta e aos wearables, dispositivos de monitoramento que podem ser usados no corpo. É uma tendência em outros países e chegará aqui também”, diz ele.

Ferrari aposta que essas ferramentas irão melhorar a qualidade de vida dos pacientes crônicos, especialmente os idosos. “Para eles, é uma questão de liberdade e autonomia. A partir do momento que a pessoa está munida de dispositivos que a ajudem a se manter independente, a vida se torna melhor. Isso também significa aumentar o acesso ao serviço de Saúde, deixando-o mais democrático.”

Regulação e humanização: desafios a serem superados

Apesar do cenário mais positivo do que anos atrás, o maior desafio para implementação das soluções de telemedicina continua sendo o mesmo: as dificuldades regulatórias. Para o diretor da healthtech, ainda há muita resistência sobre o tema, mas as conversas precisam avançar. 

“A tecnologia não é problema; o maior desafio ainda é o regulatório”, diz ele. “É claro que precisa haver muita regulamentação, mas há barreiras por parte de alguns órgãos que, para mim, não se justificam”, opina.

Mas não é apenas a questão regulatória que é vista como obstáculo para a expansão das soluções de telemedicina. Há a preocupação constante, também, em evitar a quebra de vínculo  entre médico e paciente.

Por isso, o treinamento para que as  equipes de  saúde lidem com as plataformas virtuais incluem: explicar a maneira certa de o profissional se posicionar na tela; orientá-lo a olhar diretamente para a câmera e buscar, assim, uma aproximação maior com o paciente; e cumprir um checklist básico, que inclui vestimentas adequadas e um ambiente com pouco ruído. A avaliação posterior dos pacientes serve de guia para que a empresa melhore o atendimento e garanta fluidez nas consultas.

“O atendimento online tem nuances em relação ao presencial. O paciente precisa se sentir realmente no consultório para que esteja à vontade e relate as suas queixas ao médico. A pessoa, no fim, busca uma boa experiência, com a certeza de que foi valorizada. Aqui, para reduzir a ansiedade do paciente, evitamos a intermediação por  robôs  ou enfermeiros no momento em  que o paciente clica para ver  o médico”, resume.

Outro viés da teleconsulta é a humanização, conquistada ao oferecer atendimento em lugares remotos do País. “Não vejo nada mais humano do que tratar alguém que nunca teve acesso ao serviço médico, em comunidades afastadas, em situações de necessidade, mesmo que de maneira digital. Examinar alguém sem que essa pessoa precise gastar horas de deslocamento, para mim, é um exemplo perfeito de atendimento humanizado”, conclui.