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A resposta dos novos modelos para os velhos problemas da Saúde

Nascidas no mundo digital e com a inovação em seu DNA, as novas operadoras de Saúde lidaram de forma diferente com seus beneficiários na pandemia

Marcelo Freire, jornalista da agência essense

Se você perguntar a um gestor de Saúde, ou de qualquer área, se a inovação é uma meta de sua empresa, a resposta provavelmente será positiva. O problema é o “como fazer “. São duas palavras, em geral em forma de dúvida, que atormentam líderes de todas as organizações, incluindo as operadoras de Saúde.

Às vezes, é preciso uma circunstância muito extrema, como uma pandemia, para que novas ferramentas, tecnologias e metodologias sejam finalmente aplicadas. Só que mesmo uma circunstância dessas pode não ser suficiente para impulsionar a transformação necessária.

“A Saúde é um setor muito tradicional, né? E as relações também são tradicionais. Querer que o gestor faça uma revolução e inove de uma hora para outra… isso não vai acontecer”, afirma Martha Oliveira, diretora executiva da Designing Saúde.

Mas mesmo um setor muito tradicional também tem seus novos players, que já nasceram em um mundo digital e estão comprometidos com a inovação.

O médico Vitor Asseituno lidera um desses players. Ele é cofundador e presidente da Sami, que criou em 2018, ao lado de Luiz Guilherme Berardo. Trata-se de uma healthtech que oferece planos de saúde “no estilo startup”, simples e online, visando os microempreendedores individuais (MEIs) e as pequenas empresas.

Organizamos um bate-papo entre Vitor e Martha justamente sobre os novos modelos e a sua lida no enfrentamento da pandemia, com desafios diferentes dos enfrentados pelas operadoras de Saúde tradicionais. O debate ocorreu via WhatsApp – a forma encontrada por nós para conciliar agendas tão atribuladas.

Aposta para o futuro

A Sami tem como foco a medicina preventiva e a gestão da saúde do beneficiário por meio de uma equipe composta por médico, enfermeiro e coordenador. Conta, ainda, com atrativos como as parcerias com a plataforma de academias Gympass e o aplicativo Uber.

Em 2020, em plena pandemia da Covid-19, a Sami recebeu um aporte de R$ 86 milhões, mostrando que seu modelo também pode ser atraente para os investidores.

Ao mesmo tempo, ela enfrentou os seus próprios desafios para garantir o atendimento dos beneficiários durante a crise do coronavírus, considerando que estava nos primeiros meses de operação. Mas, para Vitor, o fato de ser nova no mercado mais ajudou do que prejudicou.

“Como já nascemos digitais e implantamos um modelo assistencial que consideramos mais adequado, tivemos mais agilidade. A inovação, é praticamente 100% da nossa agenda”, diz Vitor. “Acreditamos no modelo assistencial correto, apoiado por um modelo de incentivos e processos coerentes, sempre alavancados por novas tecnologias.”

Martha concorda e diz que a experiência da Sami e de outros novos modelos em Saúde está funcionando como um piloto. “É importante para que a gente veja quais mudanças efetivas poderão acontecer no setor a partir do eventual sucesso desses formatos.”

Telemedicina sem sustos

Muito além da tecnologia, a Sami busca se posicionar como diferente em relação às operadoras de Saúde tradicionais. Vitor destaca dois pontos principais: “a forte presença da medicina de família, obrigatória para 100% dos nossos clientes, e a visão completa e preventiva de saúde – caracterizada, por exemplo, pelo uso do Gympass. Além disso, temos uma rede de parceiros enxuta e remunerada por valor, o que é a base do modelo de incentivos correto.”

Outra estratégia, essa um tanto incomum para o setor, foi a parceria com a Uber. “Nós pagamos a viagem para nossos clientes irem a uma consulta específica, pois é melhor do que ele pegar transporte coletivo e correr o risco de contaminação”, explica Vitor.

Ao mesmo tempo, a startup está de olho nas novidades tecnológicas, sempre buscando ferramentas que escalem o atendimento. “É o caso da telemedicina e da análise de dados”, pontua.

A telemedicina logo se tornou a ferramenta padrão de atendimento da Sami, um ponto que também ajudou a operadora a se consolidar na “era do atendimento remoto” que marcou o começo da pandemia.

Martha também cita a telemedicina como estratégia fundamental para que as operadoras de Saúde continuassem a realizar o atendimento dos beneficiários nos momentos em que a Covid-19 dominou os hospitais e clínicas. Mas, por outro lado, elas tiveram muita dificuldade de lidar com as filas, principalmente após a interrupção temporária dos procedimentos eletivos nos meses mais agudos da pandemia.

“Para a Sami, esse problema das filas pode não ter sido representativo, porque ela ainda é uma operadora nova”, ressalta Martha. “Mas o fato é que poucas operadoras estão conseguindo lidar com as filas. Há procedimentos que estão sendo represados, e tem outros que ainda não sabemos. Vamos ter que esperar essa demanda chegar para descobrirmos.”

O que vem por aí

Martha ressalta que a execução dos procedimentos eletivos represados, ao mesmo tempo em que os casos de internação por Covid-19 ainda ocupam os hospitais, terá um efeito difícil de prever. “Esse impacto vai ser maior ou menor dependendo do perfil da operadora. Vamos ver diferentes realidades, que serão enfrentadas em um contexto econômico também desfavorável.”

Essa crise financeira que atinge o Brasil desde antes da pandemia aumenta o grau de incerteza do mercado. Mas a necessidade de transformação continua igual. Para Vitor, os temas que envolvem essa mudança já são conhecidos; o diferencial estará na mão de quem aplicá-los de forma eficiente.

“O setor inteiro vem ‘acordando’ ou ‘voltando’ para temas como atenção primária, telemedicina, uso de dados para trazer mais inteligência ao negócio, remuneração baseada em performance, digitalização de processos, entre outros. O que vai diferenciar os ‘vencedores’ não é ter identificado uma tendência, e sim dominá-la com maestria no contexto que faça sentido para o negócio”, resume.

Martha concorda e levanta um ponto importante que vai além dos departamentos internos das instituições: a necessidade de articulação e coordenação para que essas mudanças aconteçam e tenham algum efeito.

“É preciso pensar o caminho do paciente e definir as estratégias de cuidado, pois é a coordenação desse cuidado que vai efetivamente trazer resultados”, afirma Martha, ecoando Vitor, que garante: “quem conseguir fazer isso primeiro, e melhor, terá um bom resultado não só assistencial, mas também financeiro.”

Apesar de todas as dúvidas, há uma certeza. O modelo mais centrado na rede assistencial de Saúde, com pouca atenção preventiva dedicada ao usuário, tem dificuldades de se adaptar a cenários como o de uma pandemia e está se tornando cada vez mais defasado.

“Quanto menos você sabe sobre o seu cliente, e quanto menos engajado ele é, mais difícil fica para cuidar dele. Isso é ainda mais válido quando estamos em momentos de crise”, conclui Vitor.

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